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Ergonomia no trabalho e NR-1: como cuidar da ergonomia cognitiva da empresa

A ergonomia no trabalho busca adaptar ambientes, atividades e recursos às capacidades físicas e cognitivas dos colaboradores. O objetivo vai além da prevenção de lesões: envolve reduzir o desgaste mental, fortalecer o bem-estar e criar condições mais saudáveis para o desempenho profissional.

Durante décadas, a ergonomia foi analisada principalmente sob uma perspectiva física: altura da cadeira, peso da carga ou movimentos repetitivos. No entanto, em um cenário onde o trabalho se tornou mais digital, acelerado e baseado em informação, o esforço passou a exigir menos dos músculos e muito mais dos processos mentais.

Quem está cuidando da sobrecarga mental dentro das organizações?  Esse questionamento abre espaço para um conceito cada vez mais relevante no ambiente corporativo: a ergonomia cognitiva. Inclusive, esse é um dos temas fundamentais que vamos abordar no nosso Programa Fala Company para a NR-1.

Como disse Steve Jobs: “O design não é apenas o que parece e o que se sente. O design é como funciona.” No contexto da ergonomia cognitiva, o “design” refere-se à arquitetura do trabalho e como ela interage com os processos mentais do colaborador.

A nova NR-1 (Gerenciamento de Riscos Ocupacionais) trouxe uma mudança de paradigma ao exigir que as empresas olhem para os riscos psicossociais. Não se trata mais apenas de evitar a queda de um andaime, mas de evitar o colapso mental por sobrecarga de informações ou assédio organizacional.

Portanto, vamos cuidar também da ergonomia cognitiva? Por onde começar?

O que é ergonomia no trabalho?

Ergonomia no trabalho é o conjunto de práticas que adapta atividades, ferramentas e ambientes às capacidades físicas e cognitivas dos colaboradores. Seu objetivo é reduzir riscos ocupacionais, melhorar o bem-estar, aumentar a produtividade e promover condições mais seguras para a execução das tarefas.

Quais são os principais tipos de ergonomia no trabalho?

A ergonomia pode ser dividida em diferentes áreas de atuação:

  • Ergonomia física: relacionada à postura, movimentos, mobiliário e esforço corporal.
  • Ergonomia cognitiva: voltada aos processos mentais, como atenção, memória e tomada de decisão.
  • Ergonomia organizacional: ligada à estrutura do trabalho, comunicação, processos e cultura organizacional.

A ergonomia cognitiva ganhou destaque nos últimos anos devido ao aumento das demandas mentais e à preocupação crescente com os riscos psicossociais nas empresas.

O que é ergonomia cognitiva e qual sua relação com a ergonomia no trabalho? 

A Ergonomia Cognitiva emergiu como uma disciplina distinta na década de 1970, impulsionada pela revolução da informática. Até então, a ergonomia tradicional (física) atendia bem às fábricas da era industrial. 

Contudo, o surgimento de sistemas complexos, como salas de controle nuclear e aviação moderna, mostrou que o erro humano não era uma falha de caráter, mas muitas vezes uma falha de interface e de interações.

O termo ganhou força com a fundação da International Ergonomics Association (IEA), definindo-a como o estudo dos processos mentais, tais como percepção, memória, raciocínio e resposta motora, à medida que afetam as interações entre seres humanos e outros elementos de um sistema.

“O erro humano é um sintoma de problemas profundos dentro de um sistema.” – Don Norman, autor de The Design of Everyday Things.

Em um cenário cada vez mais digital, o desgaste deixou de ser apenas físico e passou a ser também mental. Entram em cena fatores como excesso de informações, interrupções constantes, pressão emocional e fadiga de decisão, temas centrais da ergonomia cognitiva.

Como a nova NR-1 amplia a importância da ergonomia no trabalho? 

A nova redação da NR-1 estabelece que o PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos) deve identificar perigos e avaliar riscos ocupacionais, incluindo os fatores organizacionais. É aqui que a ergonomia cognitiva encontra os riscos psicossociais.

Quais são os riscos psicossociais no trabalho? 

Os riscos psicossociais são as deficiências na concepção, organização e gestão do trabalho que podem causar danos psicológicos, físicos e sociais. 

Termos como carga mental, carga psíquica e segurança psicológica agora fazem parte do vocabulário obrigatório do RH. O que entendemos desses termos afinal?

  • Carga mental

É o grau de esforço e atenção exigido para processar informações, tomar decisões e realizar tarefas em um determinado tempo. Ela representa o custo cognitivo imposto ao trabalhador para equilibrar as demandas do sistema com seus próprios limites intelectuais.

  • Carga psíquica

É o esforço emocional e afetivo exigido pelo trabalho, envolvendo elementos como a pressão por responsabilidade, medo de errar e a necessidade de lidar com conflitos ou situações estressantes. Ela ocorre quando as exigências psicológicas da função superam a capacidade do colaborador de processar essas emoções, resultando em fadiga ou adoecimento mental.

  • Sobrecarga cognitiva

A sobrecarga cognitiva ocorre quando o volume de informações e estímulos excede a capacidade de processamento do cérebro, prejudicando a tomada de decisão. Esse fenômeno gera fadiga mental, aumenta drasticamente a taxa de erros e é um dos principais gatilhos para o estresse crônico no trabalho

Leia também: Nova NR-1: guia prático para liderar em tempos de NR-1

Benefícios da ergonomia no trabalho para empresas e colaboradores

A ergonomia no trabalho gera impactos positivos tanto para os profissionais quanto para as organizações. Entre os principais benefícios estão a redução do estresse e da fadiga mental, a prevenção de afastamentos, o aumento da produtividade, a melhora da experiência do colaborador e a diminuição dos erros operacionais. Quando aplicada de forma estratégica, também contribui para o cumprimento das exigências da NR-1 e para a construção de ambientes psicologicamente mais saudáveis.

7 práticas para fortalecer a ergonomia cognitiva no trabalho

Para atender à NR-1 e promover um ambiente saudável, as empresas devem implementar as seguintes ações:

1. Simplificação de interfaces e processos

Evite o excesso de cliques e janelas em sistemas internos. Quanto menos o colaborador tiver que “navegar”, mais energia ele tem para “decidir”.

O problema: softwares com menus excessivos ou desorganizados geram fadiga visual e aumentam o tempo de resposta do colaborador.

Exemplo: um sistema de ERP onde o funcionário precisa de 5 cliques para encontrar uma função básica que usa todo dia.

Solução: implementar menus organizados por frequência de uso e criar atalhos diretos para as tarefas mais comuns, reduzindo o esforço de memória.

2. Gestão de notificações e interrupções

A gestão de notificações e interrupções é a estratégia de controlar o fluxo de estímulos externos que disputam a sua atenção durante o trabalho. Na ergonomia cognitiva, ela é vista como a “blindagem” do cérebro contra a fragmentação do pensamento.

Imagine o seu cérebro como um computador: cada vez que uma notificação de WhatsApp ou um e-mail “salta” na tela, o sistema precisa fechar um programa pesado (sua tarefa atual) para abrir um novo (a notificação). Esse processo consome energia e tempo.

O problema: a fragmentação da atenção causada por pop-ups constantes impede o “estado de fluxo” e gera estresse por multitarefa.

Exemplo: alertas de e-mail, mensagens de chat e notificações de celular tocando simultaneamente enquanto o colaborador redige um relatório complexo.

Solução: estabelecer períodos de “trabalho profundo” (deep work), onde notificações são silenciadas, e alinhar uma cultura de comunicação onde nem tudo é tratado como urgente. Treinar a equipe para trabalhar de forma mais focada e interromper só quando é estritamente necessário. 

3. Implementação de pausas cognitivas

A implementação de pausas cognitivas é uma técnica de ergonomia cognitiva que consiste em interrupções estratégicas e planejadas durante a jornada de trabalho. Ao contrário de uma pausa comum (apenas parar de trabalhar), a pausa cognitiva foca em desconectar o cérebro do processamento de informações complexas para permitir a recuperação dos recursos mentais.

O objetivo é evitar a “fadiga de decisão” e o esgotamento da memória de trabalho, garantindo que o colaborador mantenha a precisão e a criatividade ao longo do dia.

O problema: o cérebro não foi projetado para manter um foco intenso e linear por 8 ou 9 horas seguidas. Quando forçamos a atenção por períodos muito longos, ocorre um fenômeno chamado decremento de vigilância: a capacidade de detectar erros diminui e o esforço para realizar tarefas simples dobra.

Exemplo: Imagine um analista financeiro que precisa auditar centenas de lançamentos contábeis durante uma tarde inteira. Nas primeiras duas horas, ele é rápido e preciso. Na terceira hora, ele começa a ler os números, mas o cérebro já não processa o significado deles. Ele ignora um erro de digitação óbvio (um zero extra) porque sua atenção seletiva está “viciada” e exausta. Ele termina o dia exausto, sentindo que o trabalho “não rendeu”

Solução: micro-pausas e descompressão ativa, ou seja, a solução não é apenas “parar”, mas sim mudar o estímulo cerebral. A implementação deve ser estruturada seguindo protocolos como a Técnica Pomodoro (25 min de foco / 5 min de pausa) ou a Regra 52/17 (52 minutos de foco / 17 de descanso).

Dessa forma, é possível “limpar o cache” mental, reduzindo a carga psíquica.

4. Clareza em instruções e linguagem

É o pilar da ergonomia cognitiva que busca reduzir o esforço mental necessário para processar, entender e executar uma orientação.

Em termos simples: é garantir que o que foi escrito (ou dito) seja interpretado exatamente da mesma forma por quem recebe, sem margem para dúvidas, “achismos” ou a necessidade de ler a mesma frase três vezes.

O problema: e-mail longos, excesso de informações, muita “tecnicidade” nos textos aumentam o risco de erro humano e a ansiedade do colaborador.

Exemplo: uma instrução de segurança que utiliza frases complexas e termos que o operador não domina completamente.

Solução: usar linguagem direta e visual (infográficos, fluxogramas e verbos de ação), garantindo que a informação seja processada de forma rápida e instintiva.

5. Combate à multitarefa

Como afirmou Tim Ferriss: “Fazer muitas coisas ao mesmo tempo é apenas uma oportunidade de errar muitas coisas ao mesmo tempo.” Estimule o foco em uma tarefa por vez.

O problema: o cérebro humano não é “multitarefa”; ele apenas alterna rapidamente o foco entre duas coisas (chamado de context switching). Cada troca de foco consome glicose e oxigênio cerebral, gerando uma fadiga rápida. Trabalhar em multitarefa reduz o QI funcional em até 10 pontos e aumenta a probabilidade de erros fatais ou financeiros em até 40%.

Exemplo: um analista que tenta preencher uma planilha de custos enquanto participa de uma reunião por vídeo e responde mensagens de texto. Ele acaba inserindo um valor errado na planilha ou perde uma diretriz importante da reunião por “cegueira atencional”.

A solução: instituir a cultura do “foco único” (single-tasking). Propor à empresa a adoção de blocos de tempo  onde o colaborador se dedica a apenas uma atividade crítica sem interrupções. Além disso, treinar a liderança para não exigir respostas imediatas em múltiplos canais simultâneos, permitindo que o colaborador conclua um ciclo de pensamento antes de iniciar outro.

6. Limitação da conectividade fora do horário

O direito à desconexão digital é fundamental para a recuperação da fadiga cognitiva. O cérebro precisa de ócio para restaurar a atenção.

O problema: a hiperconectividade (e-mails e WhatsApp) criou o fenômeno da “disponibilidade total”. Quando o cérebro recebe um estímulo de trabalho durante o descanso, ele interrompe a produção de melatonina e os processos de “limpeza” de toxinas cerebrais que ocorrem no sono. Isso gera um estado de alerta constante (estresse crônico), impedindo que o colaborador recupere sua capacidade de atenção para o dia seguinte.

Exemplo: um gestor de operações que recebe notificações de grupos da empresa às 21h. Mesmo que ele não responda, o simples fato de ler a mensagem ativa o seu córtex pré-frontal para o modo “resolução de problemas”, elevando o cortisol e prejudicando a qualidade do seu sono e o relaxamento necessário para a restauração cognitiva.

A solução: implementar uma Política de Desconexão Digital. Isso inclui:

  • Configurar o “modo silencioso” programado em dispositivos corporativos após o expediente.
  • Proibir o envio de demandas via aplicativos de mensagens pessoais fora do horário acordado.
  • Utilizar o recurso de “Agendar envio” de e-mails para que as mensagens cheguem apenas no início do próximo turno do colega.
  • Treinar a liderança para entender que o respeito ao ócio aumenta a produtividade real nas horas de trabalho.

7. Treinamento e capacitação contínua

Treinamentos são fundamentais para adequação aos novos padrões. 

A incerteza, por exemplo, é um dos maiores estressores cognitivos. Feedbacks regulares reduzem o “ruído mental” sobre o próprio desempenho e o futuro na empresa.

Criar uma cultura onde o erro é relatado para ser analisado sistemicamente, e não punido individualmente. Isso reduz a ansiedade e o risco de depressão.

Treinamentos como:

  • Treinamentos de feedback contínuo
  • Segurança Psicológica
  • Autogestão e Autoliderança
  • Liderança para os novos tempos de NR-1
  • Inteligência Emocional
  • E, claro, Ergonomia cognitiva

Perguntas frequentes sobre ergonomia no trabalho 

O que é ergonomia no trabalho?

A ergonomia no trabalho é o conjunto de práticas que busca adaptar tarefas, ambientes e ferramentas às capacidades físicas e cognitivas dos colaboradores. O objetivo é promover mais conforto, segurança, produtividade e bem-estar durante a jornada profissional.

O que é ergonomia cognitiva?

A ergonomia cognitiva é um ramo da ergonomia que estuda como os processos mentais, como atenção, memória, percepção e tomada de decisão, influenciam o desempenho no trabalho. Ela busca reduzir fatores que geram sobrecarga mental e aumentar a eficiência das atividades.

Qual a relação entre ergonomia cognitiva e a NR-1?

A nova NR-1 ampliou o olhar das empresas para os riscos psicossociais, exigindo a identificação e gestão de fatores que possam afetar a saúde mental dos trabalhadores. Nesse contexto, a ergonomia cognitiva se torna uma ferramenta importante para reduzir sobrecarga, estresse e fadiga mental.

Quais são os principais riscos psicossociais no trabalho?

Entre os principais riscos psicossociais estão a sobrecarga de trabalho, pressão excessiva por resultados, falta de autonomia, conflitos interpessoais, assédio e excesso de interrupções. Esses fatores podem impactar tanto a saúde mental quanto o desempenho profissional.

Como melhorar a ergonomia cognitiva na empresa?

Algumas medidas incluem simplificar processos, reduzir interrupções constantes, incentivar pausas cognitivas, promover feedbacks frequentes, investir em treinamentos e criar políticas que respeitem o direito à desconexão fora do horário de trabalho.

Ergonomia no trabalho melhora produtividade e saúde mental 

A ergonomia cognitiva não é um luxo, mas uma necessidade de sobrevivência na era da informação. Ao alinhar os processos da empresa com os limites da mente humana, a organização cumpre a NR-1, reduz o absenteísmo e aumenta a inovação.

Encerrando com as palavras de Peter Drucker: “o ativo mais valioso de uma instituição no século XXI será o seu trabalhador do conhecimento e a sua produtividade.” E não há produtividade sem integridade cognitiva.

À medida que a nova NR-1 amplia a atenção sobre os riscos psicossociais, a ergonomia cognitiva passa a ocupar um papel estratégico na gestão de pessoas. Empresas que investem em ambientes mentalmente saudáveis não apenas atendem às exigências legais, mas também fortalecem o engajamento, a produtividade e a sustentabilidade dos resultados. 

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Vera Lorenzo

Vera Lorenzo, CEO da Fala Company, é fluente em cinco idiomas e especialista em Coaching e Liderança, com mais de 30 anos de atuação. Mestre em oratória, possui cinco formações internacionais em Coaching, além de expertise em Storytelling, Design Thinking, Voice Coach, PNL e Assessment DISC + Valores. Vera também é autora dos livros “50 Coisas para Fazer Antes dos 50” e “Mulheres que Transformam I e II”.

26 de junho de 2026

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